A transitória primazia do amor ao próximo

Visto à luz das considerações precedentes, Agostinho defendia até uma primazia transitória do amor ao próximo. Transitória, quer dizer, aqui na terra, no caso de estarmos obrigados a cuidar de nossos semelhantes. Sem dúvida o amor de Deus tem preferência enquanto mandamento, porém, é certo também que o amor ao próximo, na prática, vem antes. Para amar a Deus temos que começar por amar o próximo: “Estes mandamentos devem sempre ser meditados, ponderados, temos que ser fiéis a eles, colocá-los em prática, cumpri-los em plenitude. O amor de Deus vem em primeiro lugar na classificação dos mandamentos, mas o amor ao próximo tem preferência na hora de agir. Ao amar o teu próximo e interessar-te por ele, tu te pões em marcha. Aonde poderias ir, senão ao Senhor Deus?”. Isto se deve ao fato de que ambos os amores se completam mutuamente e não se podem separar. Portanto, basta mencionar somente um dos dois. Apelando à autoridade de Paulo e João, Agostinho chega à conclusão que, não sem motivo, a Sagrada Escritura habitualmente expressa um mandamento para ambos. A razão para isto aparece no seguinte texto: “Por que Paulo em ambas as cartas, aos Gálatas e aos Romanos, menciona unicamente o amor ao próximo? Não será porque, não colocando com tanta freqüência à prova o amor de Deus, poderíamos nos enganar acerca dele? Ao contrário, sobre o amor ao próximo, podem-nos convencer com mais facilidade de não amar a Deus quando agimos de maneira injusta com os demais. Mediante o preceito do amor ao próximo damo-nos conta perfeitamente de nossas falhas. Alguns Gálatas enganaram-se ao pensar que amavam a Deus. O Apóstolo lhes demonstra claramente que não era assim, por causa do ódio reinante entre eles”. Assim, pois, o amor ao próximo é a norma palpável do amor de Deus, pois graças à sua natureza prática elimina todo autoengano possível, O amor ao próximo é o modo mais concreto e seguro de manifestar nosso amor a Deus.