O Estudante e sua amante
Terminados seus estudos primários em Tagaste, Agostinho foi estudar o que hoje chamamos de Ensino Médio na cidade de Madaura, centro de maior nível cultural de Tagaste. Ao completar 15 anos, retornou a Tagaste, passando um ano em seu lar com a finalidade de permitir a seu pai conseguir as economias necessárias para custear seus estudos posteriores. Foi um ano de inatividade, descrito por ele nos seguintes termos: “Ganharam vigor e cresceram por sobre minha cabeça os espinhos de minhas paixões. E não havia uma mão que as arrancasse pela raiz”.
Com a ajuda de Romaniano, Agostinho chegou a Cartago em 370 para estudar Retórica. Retórica, a arte de falar e escrever, era naquela época o auge da cultura, que abria as portas de acesso às mais brilhantes carreiras políticas. Na qualidade de Metrópole da África e a maior cidade do Império do Ocidente, depois de Roma, Cartago era também um local de amores ilícitos. Como Agostinho jamais havia se apaixonado, ainda que suspirasse pelo amor, buscou o objeto de seu amor. “Amar e ser amado era para mim uma doce ocupação, sobretudo se conseguisse desfrutar do corpo da pessoa amada”.
Conseguiu uma amante de classe inferior à dele, à qual guardou fidelidade durante uns quatorze anos. Ignoramos seu nome. Foi a mãe de seu filho Adeodato — presente de Deus — que morreu jovem, aos 18 anos de idade. A relação de Agostinho com sua amante, constituía uma união legalmente reconhecida, algo assim como um concubinato.
Também em Cartago, aos 19 anos, descobriu sua vocação filosófica. Leu um livro de Cícero que elogiava o “amor à sabedoria”. A partir de então, a busca da verdade e da sabedoria inspirou Agostinho pelo resto de sua vida. Uma lacuna achou em Cícero. Não encontrava ali o nome de Cristo, e começou a ler a Sagrada Escritura, porém seu estilo o desiludiu profundamente. Somente muito mais tarde veria realizado seu sonho de juventude, quando chegou a ser monge e filósofo cristão.
Abraça o Maniqueísmo
Durante sua estada em Cartago, Agostinho ao Maniqueísmo, se bem que somente qualidade de “ouvinte”. Várias razões contribuíram para que se sentisse atraído por esta seita. O Maniqueísmo pretendia ser uma religião racional, oferecendo compreensão sem impor a fé exigida pela Igreja Católica. As críticas contra o Antigo Testamento satisfaziam a inconformidade de Agostinho sobre algumas passagens do mesmo.A liturgia maniquéia usava com freqüência os nomes de Deus, Jesus Cristo e o Espírito Santo, pelo que apresentava certa afinidade com o cristianismo. Os maniqueus asseguravam ter a solução de um problema que preocupava intensamente a Agostinho: o problema do mal. Os maniqueus estabeleciam dois princípios eternos, radicalmente contrários entre si: o bem e o mal, a luz e as trevas em luta permanente. Agostinho sentia dentro de si a tensão entre o bem e o mal, a virtude e o pecado. Havia em sua vida uma forte carga que lhe causava sentimentos profundos de culpabilidade, O desassossego e inquietude de seu interior lhe conduziram ao Maniqueísmo. Esta doutrina o libertou de um íntimo sentimento de culpa: “Ainda seguia pensando que não somos nós que pecamos, senão que o que peca em nós é uma natureza estranha que não sei definir. Assim é que meu orgulho se sentia cômodo por ver-se livre de culpa. Logicamente, tampouco tinha que confessar meus pecados quando agia mal, para que tu curasses minha alma porque pecava contra ti. Agradava-me desculpar-me, e preferia acusar outro elemento estranho que estava em mim e que não era eu”.
Ao longo de dez anos, Agostinho permaneceu no Maniqueísmo, ainda que seu entusiasmo por ele perdesse vigor progressivamente.
Professor de Retórica na Itália
Por volta do ano 374, Agostinho voltou a Tagaste, onde abriu uma escola de gramática, porém logo retornou a Cartago para ensinar Retórica. A baderna e a indisciplina caracterizavam os estudantes cartaginezes, autores de freqüentes atos de vandalismo. Sendo assim, decidiu ir para Roma, pois foi informado de que ali não acontecia nada parecido. Sua mãe se opunha tenazmente à sua partida, porém a ambição do filho foi mais forte. Chegando em Roma, Agostinho entrou em contato com a comunidade maniquéia local. Continuou a ensinar e se decepcionou ao averiguar que os estudantes romanos se esquivavam de pagar aos professores, faltando à palavra dada por amor ao dinheiro. Ao tomar conhecimento do projeto de se nomear um professor de Retórica em Milão, viajou àquela cidade em 384, com o apoio de amigos maniqueus influentes. Milão era, então, a residência imperial e a cidade do bispo Ambrósio. O que Agostinho não podia prever era que ali acabaria sua docência, renunciaria a uma brilhante carreira política e se converteria verdadeiramente a Deus.